Santiago de Okola (Bolívia)

Titicaca e o cachorro do nosso guia

É uma pena que não escrevi antes sobre Santiago de Okola, porque tenho certeza que alguns detalhes me escapam. Mas se fosse escrever esse post 4 anos atrás, ele teria sido mais ingênuo, menos consciente.

A pequena comunidade de Santiago de Okola é extremamente pitoresca, à beira do Titicaca boliviano. Produzem seu próprio alimento, com cada família sendo responsável por uma parte da produção (batatas e outros tubérculos, quinoa e outros cereais, porcos, ovelhas, patos, eles produzem produtos têxteis também, a partir da lã das ovelhas que criam). Queria sentir a vida andina sem os inevitáveis filtros para turistas, queria a experiência de morar à beira do Titicaca, de entender plenamente como vivem os locais. Ambiciosamente, queria me sentir local. Talvez esse seja um dos meus maiores amadurecimentos ao longo dos anos que se seguiram à nossa experiência pela América do Sul. Esse anseio impossível por sentir como o outro se sente sem sê-lo. Sem a língua, a cultura, as experiências, a perspectiva. 

Ainda assim, fiquei encantada com a comunidade e voltei sozinha um tempo depois, com Maya na barriga e máquina na mão, queria entrevistar as pessoas, sentir a comunidade, fazer um mini-doc. Essa história contarei em outro post.

Passamos dois dias por lá, fizemos trilhas, com nosso parco espanhol conversamos com os homens, trocamos gestos com as mulheres. Falávamos (entre nós) de experimentar seu modo de vida, de vivermos um pouco como eles. Nossa comida se materializava em nossa frente. Chegávamos dos passeios, lá estava ela, o primeiro prato, uma sopa, fumegante em volta da mesa, colheres ao lado, guardanapos até. Comentamos da nossa vontade de compartilhar a comida com eles. Chegamos a pedir. Queríamos muito estar com eles. O que conseguimos foi uma sessão constrangedora em que dois homens aceitaram sentar-se conosco e ficaram ali, quietos, submetendo-se ao nosso desejo de compartilhar algo com eles, sem comer, só nos olhando. Acredito que só aceitaram porque estávamos pagando. Não sabiam como relacionarem-se conosco. Tinham vergonha. Tive vergonha tempos depois, pensando naquele momento. Ao final, nos fizeram uma fogueira. Todos ali, as 2 famílias que nos receberam, conversando, em volta daquela fogueira que ardia pra nós. O fogo foi acabando, ninguém teve vontade de alimentar aquele fogo, nos despedimos e fomos deitar.

Não me arrependo de ter ido, foi nessa nossa vivência que comecei a dar voz a um sonho, o de viver também uma vida mais comunitária, menos urbana, mais conectada comigo e com quem estivesse comigo, comendo aquilo que produzimos. E não me arrependo de ter ido também porque pude, ainda que sem a abertura que esperava inicialmente, e sem a compreensão que só me veio depois, entender detalhes culturais dessas pessoas: as mulheres só falam aymará e em sua maioria, não se comunicam em espanhol. A língua espanhola e todas as situações em que elas são excluídas por esse fato, são domínio dos homens. Há uma clara divisão entre os trabalhos executados pelos homens e pelas mulheres, elas plantando, enxadas na mão, colhendo batatas, os pés enlameados, bebês nos aguayos (slings), e o cuidado com as crianças, a casa, os jardins…  e eles operando maquinário, dirigindo as vans e carros, trabalhando na cidade, dando aula na escola e tratando com os turistas.

Nas casas, os pequenos fogões à lenha, jogam fuligem nas paredes sem janelas das cozinhas apertadas, as panelas no chão, as colheres sendo equilibradas nas tampas amassadas, as mulheres, com suas longas saias, preparam aquilo que todos consomem no fim do dia. A comida deliciosamente andina, as sopas de quinoa e tubérculos que nunca havíamos visto ou experimentado.

O lago Titicaca é uma imensidão azul, uma beleza indescritível. Ali, hoje em dia, há produção de truta, peixe de águas frias. No nosso primeiro dia, fizemos uma trilha, subindo até umas pedras, onde pudemos ver o lago até seu perder-se de vista. Sentamos nas pedras, curtindo o vento frio que soprava do lago, ficamos ali, satisfeitos e cansados do esforço para escalar as pedras e a trilha naquela altitude. Nosso guia, Vicente, nos esperava calado. Aquela timidez andina que só consegui realmente apreciar à distância, passado tanto tempo.

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