Maya!

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Rodrigo fazendo pele a pele (essencial para o desenvolvimento do prematuro) no dia seguinte à alta. Junho/2013. Foto: Elaine Santana

Faz um pouco mais de um ano que escrevi sobre o Dia de Los Muertos na Bolívia.

Aquele foi nosso último dia de Bolívia: viajávamos em direção ao Peru. A linda festa dos mortos. Chorei com o acolhimento de uma família, no Cemitério Geral em La Paz, um senhor me explicando o sentido de cada uma das oferendas. Estava explodindo de emoções naquela semana, a vida à flor da pele, sentindo tudo, intensamente… Naquele momento, nem imaginava que já crescia dentro de mim a Maya. Ela me pedia descanso, repouso, introspecção, mas eu tinha planos profissionais: algumas sessões de fotos de um trabalho que fiz para uma ONG Boliviana.

Nunca foi minha intenção ficar tanto tempo sem escrever aqui no blog, mas nossa vida foi mudando rapidamente, e estávamos sempre tão ocupados que acabei não contando da gravidez. Tantas histórias, tantos textos por escrever, as fotos já editadas, só esperando publicação, e eu querendo seguir a ordem cronológica da viagem, contar da Bolívia e depois contar da chegada ao Peru, que foi quando comecei a desconfiar da gravidez (num barco, no lago Titicaca, voltando para Puno), do momento que a certeza começou a se instalar (no trem, acompanhada de um amigo nova iorquino, indo em direção a Águas Calientes). Queria dividir os momentos belos, como o que tive no ônibus em direção a Machu Picchu: me emocionei pensando no mundão que apresentaria para o serzinho que crescia dentro de mim.

Confesso que no começo da gravidez me senti perdida, intimidada pela possibilidade da maternidade. E isto também dificultou a escrita. Tive medo de não ser suficientemente boa como mãe, tive medo de não amar, e medo de mim mesma. Se nas minhas viagens olhava os povos e descobria muito da cultura brasileira, na gravidez, olhei muito para mim mesma e me redescobri, outros aspectos, muitas histórias, minha família. Foi difícil conseguir elaborar tudo que vinha e veio à tona. Lembrei muito da minha infância, memórias soterradas à força, abandonos, abusos. Reencontrei a menininha que fui, que não quis mais ser e ainda sou. Estendi minha mão para ela, processo necessário para ser a mulher de hoje e a mãe que me tornei.

Em abril, voltamos definitivamente para São Paulo, encerrando (ao menos temporariamente) a passagem pela América do Sul. Precisava de tempo para organizar o parto. Queria que meu filho ou filha nascesse em casa (queríamos também descobrir o sexo só na hora do parto), cercado de pessoas conhecidas, de aconchego e amor. Precisávamos de um lar. Convidei uma amiga querida para ser minha doula e convidei minha cunhada, que é doula e uma pessoa extremamente sensível e respeitosa, para se juntar a nós. Comecei a fazer o pré natal com uma parteira.

Mas é claro que a vida tinha outras ideias para a chegada dela: minha filha nasceu prematura, de 29 semanas (popularmente, 6 meses e pouco de gravidez), ficou internada 38 dias. Foi sofrido pra nós duas (na verdade, foi sofrido para todos nós, mas naquele momento, eu só conseguia pensar na dor dela e na minha). No processo de parí-la, me conectei profundamente comigo, com ela. Quando ela nasceu, chorou e o choro dela encheu nossos corações de uma alegria esperançosa. Tive sorte: assim que a vi, pequena, senti por ela uma paixão profunda e avassaladora. Ela nasceu com 1.275 gramas, mas nela eu nunca vi fragilidade. Eu via força. Eu brigava com quem falasse que ela era frágil. Mesmo.

O ambiente estéril e autoritário do hospital me sufocava e oprimia, mas foi a paixão por ela e a vontade de poupar-lhe cada sofrimento que eu pudesse poupar (ainda que não pudesse e nunca vou poder poupar todos) que me guiou por aqueles dias sofridos. Com afinco obsessivo, ordenhava leite numa máquina, várias vezes por dia, alimento para ela continuar saudável e para se saber amada, querida, esperada. A segurei sempre que me deixaram: meu calor, meu toque, minha presença ajudando-a a desenvolver do lado de fora o que era para ter desenvolvido dentro de mim. Minha voz, minhas palavras: cantava, falava e quando acabaram as palavras, comecei a ler Alice no País das Maravilhas (alguns enfermeiros me olhavam torto, uma boquiaberta: a louca que lia para um bebezico tão pequeno). Queria mesmo era que a Maya soubesse que eu estava ali por ela, que ela não estava sozinha, que existiam outros toques, suaves, carinhosos, além do toque objetivo, impessoal, com hora marcada, da equipe de enfermagem que a atendia. E havia mais: um mundo lá fora para ela conhecer, aguardando ansiosamente sua saída. Eu descrevia o sol, os raios tocando nossa pele e nos aquecendo e falava pra ela se apressar, o sol queria conhecê-la também. A internação foi rápida (para o estágio de prematuridade que ela se encontrava) e sua vinda para casa celebradíssima. Ela teve alta do hospital e eu tive alta do processo infernal que havia se instalado dentro de mim ao longo daqueles 38 dias: finalmente eu podia ser mãe com mãos, com boca, com beijos, com abraços, sem relógio, sem processos, sem protocolos, sem censuras, sem medo.

Mas ainda levei alguns meses para voltar a ser senhora de mim mesma: saí tímida e insegura da experiência hospitalar. E muito mais consciente de que se a medicina ocidental tradicional criou meios de garantir sobrevivência, ainda tem muito, muito mesmo para pensar e repensar sobre a vida e o ser humano em toda sua complexidade e subjetividade.

Faz 6 meses e 10 dias que a Maya está aqui conosco. Faz 6 meses e 10 dias que virei mãe. No processo, me tornei um ser humano imensamente mais interessante e feliz.

E agora, sentada no sofá do apartamento sublocado, nossa nova casa por este mês, em Nova Iorque, nova etapa da vida, finalmente consigo escrever um pouco, retomar este blog tão querido. Espero terminar de contar as experiências da América do Sul… E contar outras histórias, das novas que vamos vivendo, agora que somos três.

Observação: Texto modificado e atualizado após a primeira publicação.

Amamentando a Maya na sala de casa. Setembro/2013. Foto: Carol Gutierrez
Amamentando a Maya na sala de casa, em São Paulo. Setembro/2013. Foto: Carol Gutierrez

7 Replies to “Maya!”

  1. Elaine, demorei pra ler, mas adorei seu texto. Certeza que a Maya será a sua companheira de muitas aventuras sensacionais pelo mundo. E fico aqui torcendo por novos posts e novidades. Beijos

  2. Thank you for sharing, Elaine… I hope it is healing for you and I look forward to hearing more! How amazing is life? How grateful I am to live it and that you have lived through these experiences, able to reflect, learn, grow and heal… much love to you all, Carly xxx

  3. Parabéns Eliana e Maya, pela coragem e força. Sou mãe de dois homens, um de 23 e outro de 21, apesar de todos os sustos e testes e problemas que sempre tive, hoje me lembro destes anos com muito carinho e orgulho por ter posto no mundo dois seres humanos, de boa índole e bons sentimentos. A alegria da vida sempre se faz pelas pequenas coisas e atitudes e pelo que vejo, vocês hão de ser muito felizes, todos os três, pois quem cuida com tanta delicadeza e atenção consciente, já está colhendo e irá sempre colher o que há de melhor no relacionamento.

    1. Que bonito o que você escreveu, Beatriz. Obrigada!

      Dei uma atualizada no texto, se quiser reler, tem algumas coisas novas.

      Elaine

  4. Elaine, parabéns pela coragem em continuar escrevendo e pela nova vida que trouxeste ao mundo! Cresço com vc, obrigada.

    1. Obrigada Leticia. Tem sido uma experiência maravilhosa, rica.

      Olha, dei uma atualizada no texto, se quiser reler, tem algumas coisas novas.

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