Dia de los Muertos – Uma Incursão Antropológica

Na Bolívia, assim como no Brasil, a celebração acontece dia 2 de Novembro. Também chamado de Dia de los Difuntos e para os católicos, Dia de Todos los Santos.

Na semana que antecedeu o feriado, eu fazia uma série de vídeos e entrevistas em La Paz para um documentário que envolve a manufatura de roupas de lã de alpaca e ovelha por mulheres andinas de origem indígena. Tive dificuldades para entrevistar as mulheres porque, além da tradicional timidez andina, elas estavam ocupadas fazendo os pães que seriam oferecidos para os mortos. Na verdade, eu passei a semana inteira ouvindo que as mulheres não podiam me encontrar “porque estavam fazendo pão”. Só no fim da semana que fui entender o ritual.

Assar pão é uma parte importante do ritual do dia dos mortos. Chamados de t’antawawas, os pães são doces e feitos em diferentes formatos, o mais comum sendo o que tem a forma de um bebê (wawa) com um rosto de criança em cerâmica anexado no pão antes deste ser assado. Há outros formatos também, por exemplo, de escada (para que as almas possam subir até o céu) e de anjos com asas, que ajudariam as almas de crianças a chegar ao paraíso.

Como em quase toda a América do Sul, a cultura indígena acabou misturada com a cultura cristã por convivência ou, na maioria dos casos, imposição: Antes da chegada dos espanhóis, os andinos retiravam o morto (que naquele tempo era embalsamado) de seu túmulo para que com ele interagissem: dançavam, o levavam para caminhadas, e por fim, compartilhavam uma refeição, antes de o enterrarem novamente. Os colonizadores, horrorizados, acabaram com a prática.

Algumas comunidades mantiveram o costume, mas ao invés de desenterrar os mortos, vestem um dos membros da família como se fosse o familiar morto, fazendo-o ir ao cemitério, conversar, comer, dar conselhos, sendo, no fim do dia, enxotado de lá para que o morto “não se acostume” e “se recuse a abandonar o corpo” tomado de empréstimo no dia 2 de novembro.

Tradicionalmente, as famílias visitam os túmulos de seus falecidos levando junto consigo um pequeno banquete de guloseimas, as preferências do morto são levadas em consideração. As comidas são espalhadas em um tecido, como numa ‘mesa’ de piquenique. Na Bolívia oriental, a mesa é arrumada em três níveis que respeitam as camadas ecológicas em que são produzidas: Alaxpacha (céu), Ak’apacha (terra) e Mank’apacha (inferno).

Nesta visita pelo cemitério, não era raro ver túmulos com grandes sacos de folhas de coca e copinhos de alguma cachaça, latas de cerveja ou de coca-cola. Um pouco da personalidade do morto transparece na decoração de sua última moradia.

Apesar de os mortos estarem sempre presentes na vida das pessoas, no Dia dos Mortos, estes voltam para a terra para certificar-se de que ainda são lembrados e queridos. Para garantir-lhes que sim, neste dia, as famílias deixam um lugar para o morto na mesa.

Algumas famílias contratam músicos e bandas (mariachi) para tocar e cantar na frente do túmulo. Há também a contratação de profissionais para pintar e arrumar o túmulo. Algumas famílias contratam crianças ou pobres para rezarem na frente do túmulo: acredita-se que Deus tem mais piedade das crianças e dos pobres e atenderia o pedido destes com mais frequência do que de outras pessoas. Todos trazem flores, especialmente para os mortos que gostavam muito destas.

Há muitas famílias que não levam a festa ao cemitério, preferindo organizá-la em sua própria casa e dividindo com as visitas as comidas favoritas do morto.

Talvez porque a crença é de que a vida não está separada da morte, espera-se que os mortos apareçam. Eles chegam ao meio dia, e partem na mesma hora, no dia seguinte. Na realidade, duas festas são organizadas: uma para a chegada e outra para a partida. Os mortos precisam de muita energia para chegar ao mundo dos vivos e depois partir deste.

Na Bolívia, as pessoas esperam por um sinal de que o morto está presente. Qualquer coisa fora do comum que aconteça durante as festividades é motivo para crer que o morto finalmente chegou: uma mosca, um passarinho, a visita inesperada de alguém, uma queda, a quebra de um prato.

Novembro é o ínicio da época de chuvas na Bolívia, há uma crença na cultura andina relacionada com a importância da reciprocidade: Os vivos alimentam o morto que em troca, intervém com a Pachamama (mãe natureza) para que esta providencie a chuva e garanta que a colheita seja abundante.

E desta vez, troquei o slideshow por um pequeno vídeo de 1.30, que produzi com fotos e filmagem do dia.

 

Algumas das informações deste post foram retiradas do jornal Câmbio

3 Replies to “Dia de los Muertos – Uma Incursão Antropológica”

  1. Boa Noite Elaine, onde tu estejas. Finalmente saí do Outras Palavras para dar uma espiadela em seu caderno de vivências, se assim podemos chamar sua narrativa. Não importa o nome, sequer rótulo, bom que não tenha nenhum mesmo. Fico contente em encontrar aqui em seus rascunhos algumas "palabras del fuego" como nos dizem os Zapatistas. Nada de relatos "outdoor" ou roteiros de viagens, basta os muitos já existentes. De todo modo, sigamos, tu viajando por aí, nós caminhando por cá, afinal, ninguém está parado.

    abraços, ande sempre com a vista apurada, onde quer que a vista olhe, lá encontramos algum rincão por onde caminhar.

    Carlos
    De algum lugar do Norte Amazônico

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